Entrevista

Muito prazer – Cláudio Chinaski

Publicação: 08/01/2012 02:00

 (Foto: Luiza Spinola/Divulgação)

Dono do pedaço

Cyntia Dutra
Especial para o correio

Dramaturgo e diretor de teatro e de tevê, Cláudio Chinaski nasceu em Goiânia há 43 anos. Aos 4, o criador e diretor do Espaço Cultural Mosaico mudou-se para Brasília. Nos últimos cinco anos, a criação de Chinaski ofereceu à cidade 50 espetáculos e 43 eventos. lecionou a 630 alunos, atraindo um público médio anual de 20 mil pessoas. O dramaturgo que já trabalhou com iluminação para shows e espetáculos, gosta de fotografar e, de vez em quando, aventura-se na literatura, escrevendo contos e poemas.

Qual era seu objetivo quando criou o Espaço Mosaico?
Minha relação com o Espaço Mosaico é profundamente afetiva. É para ser o local aonde você tem prazer em ir. Quero que as pessoas vejam bons espetáculos e que se sintam parte fundamental do processo artístico da cidade. Sempre achei a maioria dos espaços culturais de Brasília muito impessoais, e o Mosaico é o contrário disso, é a pessoalidade, a afetividade.

Acredita que seu objetivo foi atingido na criação desse espaço cultural?
Tenho orgulho das pessoas que caminham comigo nesse processo. Ele é feito todo dia por quem está lá dentro, principalmente por minhas sócias, Rangéria Amorim e Daniela Gonçalves. Somos um feito de muitos, como um mosaico. Nisso, eu acredito que atingimos nossos objetivos. De uma forma prática, não se pode falar na cultura de Brasília sem falar do Espaço Mosaico. Damos trabalho a uma centena de profissionais ao longo do ano, produzimos eventos que são vistos, gratuitamente, por cerca de 20 mil pessoas por ano e o cenário que vislumbramos é de crescimento contínuo.

Projetos para o futuro: tem algo em mente?
No final de 2012, deve estrear um projeto que estou dirigindo a partir de um texto meu. E marca minha volta à direção depois de quatro anos sem montar nada. Também é a primeira vez que resolvo montar um texto meu. No Espaço Mosaico, temos um ano agitado, com uma extensa programação, de março a dezembro, quase todos os dias da semana, sempre em eventos gratuitos. Vamos dar início a parcerias internacionais, trazendo artistas de vários lugares do mundo. Também é nossa ideia incubar alguns grupos teatrais, dando suporte físico e administrativo para que desenvolvam seu trabalho criativo.

Que temas costuma abordar em seus textos?
Meus textos falam de conflitos que fazem parte da humanidade. Acho que, por mais que tenhamos nos afastado dos mitos e símbolos, que tenhamos iluminado todos os cantos de nossas vidas, ainda assim nos sentimos como os primeiros seres humanos, olhando para a escuridão fora de suas cavernas e fazendo as perguntas básicas da vida: por que, para que, de onde, para onde. Não em busca de respostas, mas de compartilhamento de perguntas.

O que tem a dizer sobre a qualidade dos atores de Brasília?
Como em todo lugar, temos atores espetaculares e medíocres. Os espetaculares são os que se acham aprendizes; os medíocres, os que se acham espetaculares.

Quais são as dificuldades enfrentadas por quem quer viver de arte em Brasília?
Acho que a visão romântica que a maioria das pessoas ainda carrega — artistas inclusive — prejudica muito a profissionalização do trabalho artístico. A arte é um produto como outro qualquer, e o artista tem que saber vender esse produto, seja através da captação de patrocínios, seja enquadrando seu trabalho nos diversos editais de cultura.

O que seria o ideal?
O ideal era que existisse a figura do produtor e que cada artista trabalhasse com um, mas o mercado de Brasília ainda é incipiente, então cabe a cada artista se profissionalizar, aprender a lidar com a burocracia e as exigências do mercado.

Acredita que a produção cultural da cidade é acessível a todos os públicos? Se não, o que precisa para melhorar?
Faltam espaços nas demais regiões administrativas de Brasília, além do Plano Piloto e Taguatinga. Todas as cidades possuem seus artistas, mas não têm onde apresentá-los. Com isso, não se profissionalizam e não se forma público nas suas regiões de atuação. O governo deveria investir na criação e manutenção de espaços nessas cidades, mas a ideia que os governos fazem de cultura é aquilo que junta cinco mil pessoas em um mesmo local. Quando o governo abre um edital para financiamento da cultura, obriga artistas a darem, como contrapartida, a apresentação em diversas regiões do DF, mas não disponibiliza locais condizentes para essas apresentações, que acabam sendo realizadas em pátios de escolas, salas de órgãos públicos e ao ar livre. É um desrespeito com a população desses locais.

Acredita que os investimentos do FAC são suficientes para a produção teatral brasiliense hoje em dia?
Os editais não são a solução para a cultura, mas são importantes. Sou contra o excesso de exigências nas contrapartidas, como se o trabalho do artista não valesse o investimento público. Penso se os funcionários da Secretaria de Cultura são obrigados a dar alguma contrapartida para receberem o seu salário… Sinto também um certo comodismo por parte dos artistas, que ficam esperando o edital do FAC como se fosse a salvação da humanidade.

Que “acrobacias” você e outros artistas costumam fazer para manter a produtividade e as apresentações?
Nós temos bons captadores e projetos em diversas áreas, que nos permitem escolher os editais em que vamos entrar. Há seis anos não apresentamos projetos ao FAC e temos nos mantido muito bem.

E o projeto Arte e Cidadania?
Ele foi criado como um grupo de oficinas culturais que terminava com um evento de rua, onde se localiza o Espaço Mosaico, na 714/15 Norte. Os três primeiros aconteceram como previsto, mas um vizinho reclamou do evento, alegando que incomodava o domingo dele, e a Administração não mais autorizou a realização na rua.

Como foi esse problema com o vizinho?
Todos os vizinhos eram a favor dos shows, e só um era contra, mas a Administração ficou do lado dele. Isso é uma coisa que irrita em Brasília, porque não dá para dar vida à cidade. Tudo é gueto. Em São Paulo, as coisas convivem, uma ao lado da outra. A gente queria um evento que unisse justamente os vizinhos, que as pessoas trouxessem seus filhos, cachorros, se sentassem na grama… Eram shows pequenos, a maioria de música instrumental: Roberto Correia, Pablo Fagundes, coisas introspectivas.

Em função desse tipo de entrave, o que mais prejudica aqueles que querem proporcionar arte e cultura para a cidade?
Brasília não tem intervenções urbanas nem artistas de rua. Vemos pessoas que moram em quitinetes comerciais reclamando de barulho de bar. Isso é absurdo! Entendo que as pessoas têm o direito ao silêncio. Eu mesmo sou superchato com isso, mas não se pode engessar a cidade. Precisamos de teatros e cinemas nas ruas, shows nas entrequadras. Não todo dia, mas de vez em quando. E o poder público tem que valorizar essas iniciativas, não se esconder atrás de códigos de 1960, como acontece hoje. O governo tem que abrir essa discussão com a população.

O que a mudança de local do Arte e Cidadania gerou?
Fomos para a Praça do Museu Nacional e para o gramado da Funarte. Sem o problema com vizinhos, fizemos os shows crescerem, trouxemos gente de fora de Brasília, como Orkestra Rumpilezz, da Bahia, e Lirinha, de Pernambuco. Também valorizamos os artistas locais, temos esta preocupação: de dar boas condições de trabalho, divulgação e pagamento de cachê à altura. Sem essa de diferenciar artistas locais e nacionais, como normalmente fazem nos grandes eventos, onde os artistas locais são meros “tapa-buracos” para os grandes shows.

Quais os planos para a próxima edição do projeto?
Já temos programadas três edições com oficinas e shows. Vamos ocupar todas as regiões administrativas com cursos gratuitos de arte e pensamos em realizar shows nesses locais, com artistas da própria comunidade, como forma de encerramento das atividades em cada região administrativa.

Qual você considera o projeto mais importante do Espaço Mosaico?
Todos estão de alguma forma ligados a um objetivo maior, que é estabelecer o Mosaico como polo de produção, de discussão e de difusão da cultura em Brasília. Temos o Poesia e Vinho, onde a gente leva um poeta para discutir seu trabalho com o público. Servimos um vinho e a conversa fica gostosa, um bate-papo quase caseiro. Mas o meu preferido é o Arte e Estética, que é uma mostra de teatro com trabalhos voltados para a pesquisa de linguagens de encenação e treinamento de atores. Em todas as edições, tivemos pelo menos um espetáculo indicado ao prêmio Shell de melhor ator ou melhor espetáculo.

O que gerou sua paixão por arte e cultura? Acha que é algo que nasce com a pessoa? Todo mundo pode ser artista?
Acho que qualquer um pode dizer que é artista, mas só é artista realmente quem trabalha e estuda arduamente para isso. Eu digo para os meus alunos que um mau ator é tão perigoso quanto um médico ruim. O ator ruim mata a personagem, mata a vida nela, mata a alma do texto e, o que é pior, mata o espectador de tédio. E cada espectador decepcionado convence outros três a não irem mais ao teatro. Então um ator ruim é um criminoso. Ah, caramba! Você conseguiu entrar no meu lado cruel.

Não é cruel, só um pouco dramático. Mas você é dramaturgo, o que mais se poderia esperar?
(risos) Boa saída. Eu não gosto de ir ao teatro, prefiro cinema.

Pelo fato de ser muito crítico?
Sou insuportável. Eu aceito cinema ruim, até me divirto, mas teatro tem que ser espetacular, senão não presta.

O que tem de espetacular em Brasília na linguagem cênica?
Jamais vou responder isso. Isso vai me fazer ser morto na rua. Digamos o seguinte: só vi cinco espetáculos perfeitos na minha vida, e nenhum foi de Brasília. Mas tem, sim, muita coisa boa na cidade, por isso minha crítica ao processo de financiamento. Minha esperança é de que se formem grupos estáveis de pesquisa e produção, pois acredito que esse seja o caminho para a qualidade: continuidade.

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