Textos sobre Arte

Sobre políticas culturais.

(este texto foi escrito há uns 6 anos mas considero que ainda são válidos os questionamentos aqui presentes, ainda mais diante do que vem acontecendo com o Fundo de Arte e Cultura em Brasília. Mais uma vez repito: não é minha intenção provocar ninguém de forma pessoal, apenas quero dar subsídios a que se discuta a produção cultural em nosso País. As políticas culturais devem ser maiores que as pessoas que as fazem.)

O modo como as políticas culturais são abordadas por estadistas é algo que pode causar surpresa hoje em dia. Nas raras ocasiões em que falam sobre seu posicionamento em relação à arte e à cultura, muitos justificam sua preocupação com estes assuntos citando sua grande capacidade em promover a inclusão social, tirar jovens da marginalidade, contribuir com a geração  de empregos. Em nenhum momento ouve-se falar da importância da arte como elemento estético, fruto da atividade criativa de um povo, e, principalmente, como algo que não necessita de uma função social para existir.

Parece que nenhum deles nos dá o direito de pleitear políticas públicas se em troca não inserirmos alguém na sociedade, não gerarmos empregos ou promovermos algum outro tipo de “inclusão social”. Os velhos ideais artísticos, tais como traduzir o tempo em que vivemos, experimentar conceitos, investigar linguagens, produzir valores estéticos que não necessariamente serão compreendidos ou reconhecidos em nossa época, nada disso parece importar. Vivemos um utilitarismo que nem mesmo dos objetos de consumo se parece exigir. Um livro deve denunciar algo, uma peça de teatro refletir a realidade dos jovens, um filme retratar a identidade nacional, uma música servir de voz de protesto a uma geração. As pessoas passam a procurar utilidade para os quadros nas paredes, para os livros na estante, para dança, teatro, instrumentos musicais, argila e mármore, papel e caneta.

E se o que tivermos para oferecer for uma rigorosa investigação acerca das linguagens de encenação? Se estivermos interessados em como o corpo do ator reflete seu trabalho interno? Em como a linguagem escrita pode inventar mundos? Em como a notas musicais dialogam umas com as outras na construção de estruturas ao mesmo tempo agradáveis e surpreendentes aos nossos ouvidos? Se quisermos apenas e tão somente experimentar a justaposição de linguagens em um único espaço cênico? Seremos considerados parasitas sociais, diletantes que gastam indiscriminadamente um dinheiro que poderia ser melhor aproveitado em escolas e hospitais? Párias em uma sociedade que não entende a orelha de Van Gogh ou o suicídio de Florbela Espanca, que olha torto para tantos nomes de um mesmo poeta Pessoa ou para a pedra no meio do caminho de Carlos? Parafraseando Bertolt: que mundo é esse onde falar de estética é calar sobre tantos problemas sociais?

Se observarmos com atenção os editais públicos de financiamento à cultura, notaremos a grande importância dada às contrapartidas sociais. Me pergunto se a necessidade de se adequar a estas exigências não impede trabalhos de pesquisa que poderiam gerar grandes resultados para um futuro próximo, se não sufoca artistas com o peso de prazos e resultados contados em semanas ou dias. Vemos a ênfase na montagem e na apresentação de resultados. Na produção imediata que agrade governos, patrocinadores e o Senhor Mercado, seja lá que senhor este for. Tudo muito rápido, tudo muito imediato.

Busco um político e uma política cultural que permita a pesquisa artística sem exigir resultados imediatos, sem o mesmo utilitarismo que se exige de uma fábrica de tênis ou de computadores. Quero dar tempo tanto àqueles que trabalham comigo quanto ao público ao qual me dirijo. Quero poder ler muito antes de levar um espetáculo à cena e quero fazer isso podendo desfrutar de políticas públicas. O meu ato de ler, de muito ensaiar, de pesquisar e me esmerar em um processo de montagem é o meu ato político, minha forma de inserção na sociedade. Artistas e pensadores são o “homem inútil”, no sentido que os filósofos antigos se referiam a si mesmos. As paredes que construímos são erguidas em outros planos, mas são tão reais quanto as paredes de concreto que nos cercam, e exigem gastos e trabalhos como o prédio que ser ergue ao lado de nossas casas.

Quero alguém que entenda os anos de pesquisa de Grotowski e de Barba, o experimentalismo de Cage, Pollock, Pina, Herzog e Maiakoviski, destes tantos que nos deram a arte como herança e que nos jogaram o fardo de também deixar para as futuras gerações algo que as incentive a criar, produzir, buscar seus próprios caminhos e linguagens. As trilhas do viver são longas, e as lanternas que nos guiam por elas são construídas principalmente pela arte e pela cultura. Não hoje ou amanhã, mas através dos anos que vieram e dos que virão.

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